https://youtu.be/NUa6mOmFfD0?si=UiZ4rKF02Y1LF-s9 - El Observatorio - ¿Por qué hay tantos árabes en Bolivia y Latinoamérica? Nadie te lo explicó así
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
OS ESTADOS UNIDOS E SEUS ARROUBOS PREDADORES
Charge de Louis Dalrymple, de 1905. Ao lado, a adaptação de 2025.
Os Estados Unidos e seus arroubos predadores
'Destino manifesto', 'doutrina Monroe' e 'doutrina Donroe'. Desde a colonização pelos ingleses, as elites estadunidenses são predadoras: não por acaso dizimaram os povos originários e submeteram ao seu jugo opressor africanos escravizados, latino-americanos explorados, árabes e demais asiáticos e africanos condenados por pura ganância e cobiça sem fim. Até quando?
Tomo a liberdade de iniciar este texto remetendo-me a uma das razões que fizeram com que o escrevesse (há outra, exatamente oposta, para felicidade de quem teimou em passar boa parte da vida a tentar valorizar, anônima e ainda que minimamente, as bases de uma sociedade menos injusta e mais solidária).
Dias atrás, ao conversar com o filho universitário (mais de 50 anos de vida, pós-graduado e com tudo que um pai faz pelo primogênito) de um grande Amigo -- desses com letra maiúscula --, percebi que estudar não significa muita coisa quando o pensamento é raso e o neopentecostalismo faz verdadeira lavagem cerebral e, como em guerra de terra arrasada, perdem sua razão de ser todos os valores construídos pela humanidade ao longo de milênios que com muita coerência e abnegação a família desse Amigo passou a vida a fortalecer.
Sábio, meu querido e saudoso Pai, em nosso fecundo convívio familiar, vivia a nos alertar, contando o episódio em que o pai tomado de perplexidade com a mediocridade do filho formado que retorna da Europa, a quem dá uma 'invertida' com genial paródia ao ridículo poema com que ao chegar saudou seus familiares e amigos no campo de pouso do povoado da Amazônia boliviana: "Se de teus estudos / esse é o fruto, / aiaiai que bruto, / aiaiai que bruto!" ["Si de tus estudios / ése es el fruto, / ¡ayayay, qué bruto!, / ¡ayayay, qué bruto!"]
SEDUTORES OLHOS AZUIS
Ver os arroubos predadores do 'agente laranja' que se jacta de ser uma espécie de 'césar' do século XXI é pura desinformação. Os Estados Unidos são a melhor representação daquilo que durante séculos o colonialismo europeu proclamou de 'civilização' e chamou para si um papel fictício de paladinos do 'progresso'.
Triste é vermos não apenas uns energúmenos portadores de diploma -- pobres diabos que se creem 'cultos' pelo diploma que carregam --, mas uma imprensa criminosa que vive a mentir, mentir e mentir acintosamente desde os tempos em que construíram uma narrativa para sublimar o chamado 'quarto poder'. Na verdade, poder do quarto -- da edícula dos criminosos que desde as 'grandes navegações' vivem a assaltar terras, vidas, culturas, riquezas, a história e o porvir de outros povos. À exceção, é claro, de Jornalistas com letra maiúscula que, com coragem e dignidade, ajudam ou ajudaram a escrever a história com base nos fatos.
'Destino manifesto', 'doutrina Monroe' ou agora 'doutrina Donroe'? Uma ova, não passa de mera justificativa para cobiçar, explorar, pilhar, saquear, roubar. Isso as elites estadunidenses fazem, desde sempre, com eficiência e muito, mas muito profissionalismo. Feito fera acuada, o imperialismo, recorre a todos os meios de que dispõe -- inclusive com o recrudescimento do fascismo, desta vez remasterizado e 'cristianizado', com as bênçãos dos sionistas que exportam seu know-how genocida experimentado com o povo milenar da Palestina, Líbano, Iraque, Líbia e Síria, não por acaso, (ex?)colônias da Inglaterra, França e Itália.
Com um arsenal nuclear capaz de destruir o Planeta dezenas de vezes, os EUA têm noção, sim, de que os dias de hegemonia global estão contados. Nunca se tratou de defesa da democracia e liberdade, mas de cobiça e saque. A história está aí para provar, e para isso não vamos a desenhar, vamos recorrer às emblemáticas pinturas e charges a expressar eloquentemente esse irrefutável dom, inigualável aptidão para dominar, explorar, destruir e exterminar as suas vítimas.
Os Estados Unidos são o cúmulo da volúpia saqueadora europeia, cuja perfeição é o Estado sionista de Israel. Como as novas gerações de cariocas vivem a dizer, "tudo junto e misturado". Ou teria sido mera coincidência o apoio incondicional ao genocídio de Gaza pelos sionistas de Benjamin Netanyahu, sob o pretexto de retaliar a 'ação terrorista' que capturou soldados em festa em área contígua à Faixa de Gaza em 7 de outubro de 2023? Bebês, crianças, adolescentes, jovens, mulheres grávidas, mães de todas as idades, idosos inofensivos, mortos aos milhares com requintes de crueldade por serem palestinos. Isso é 'democracia', é 'civilização'?
O século XIX -- diferentemente do anterior, em que o Iluminismo, herança do Renascimento ocidental (porque o oriental, acintosamente ignorado pelo ocidente, havia ocorrido um milênio antes e com efetivo protagonismo árabe, cujo legado foi essencial para a emancipação civilizacional da Europa feudal), contribuiu para a difusão do humanismo em solo europeu -- foi pródigo não apenas para a exarberação do racismo científico eurocêntrico (a 'eugenia'), como para as 'doutrinas' em que os europeus e as elites herdeiras das ex-colônias tentavam justificar uma suposta 'missão divina', como o sionismo e as bases fundantes do nazismo, fascismo e 'apartheid'.
INTERPRETAÇÃO TORTA DA BÍBLIA
Absolutamente nada os seguidores de Henrique VIII, Lutero e Calvino podem criticar das ações da Companhia de Jesus, da igreja católica, e seu afã de 'cristianizar' os 'pagãos' que habitavam os territórios 'descobertos' (invadidos) pelos súditos dos reis católicos (lusitanos, castelhanos e aragoneses, mais tarde portugueses e espanhóis). Os súditos dos descendentes de Henrique VIII (aquele rei que, ao não ter consentimento papal para contrair o quarto casamento, decidiu, aproveitando a onda protestante, criar sua própria igreja, tanto que até hoje o rei inglês é o sumo pontífice da igreja anglicana) se valeram da pirataria para pilhar as naus cheias de matéria-prima saqueada das terras recém-ocupadas pelos ibéricos -- além de franceses, belgas e holandeses, que usaram corsários --, e quando decidiram tomar parte das terras colonizadas por seus 'irmãos cristãos' também recorreram à interpretação torta da Bíblia, como, aliás, fazem hoje os neopentecostais, nada diferente, a rigor.
Em 'Progresso Americano', de 1872, John Gast retrata alegoricamente o 'destino manifesto', doutrina com que desde o início do século XIX as elites dos Estados Unidos procuram estimular o ímpeto predador, colonialista e explorador sob a interpretação bíblica ao bel prazer e, sobretudo, de interesses inconfessáveis. Não esqueçamos que essas elites são seguidoras do puritanismo protestante do século XVI e, por meio da ideologia do 'destino manifesto', recorreram a u'a 'missão divina' para levar 'democracia' e 'progresso' a todo o continente. Ao aliar à doutrina Monroe, as elites passaram a ter o que queriam para delinquir em sua ganância mórbida. Eis o 'capetalismo' que 'cristãos' apoiadores do sionismo tanto defendem.
[Imagem disponível na Divisão de Gravuras e Fotografias da Biblioteca do Congresso dos EUA. Domínio público, identificação digital: ppmsca.09855.]
A doutrina "A América para os americanos" foi adotada pelos Estados Unidos em 1823, na presidência de James Monroe, daí o nome. Com a sua adoção, o território triplicou e suas riquezas tiveram crescimento exponencial, a ponto de se tornar, ainda no século XIX, uma potência mundial. No pós-guerra de 1945, foram considerados uma das duas superpotências e por 45 anos disputaram com a extinta União Soviética a hegemonia mundial. Desde 1991, com o fim do antagonismo soviético, passaram a ser considerados a maior potência global, quando teses de Francis Fukuyama (do fim da história) e de Samuel Huntington (do choque de civilizações), serviram para justificar as investidas da Casa Branca no Iraque, Líbia e outros países árabes cobiçados.
Embora desde fins da década de 1990 o déficit fiscal dos EUA fosse trilionário -- isto é, se encontrasse em escala estratosférica e os tivessem levados a gestões predadoras em nível planetário --, é a partir de 2008 que a crise financeira do tesouro estadunidense se torna indisfarçável. A (re)eleição de Donald Trump em 2024 reacende a velha nova postura predadora dos Estados Unidos perante a Terra e, em 2025, em meio a sucessiva coleção de fracassos em sua obsessiva 'guerra' contra a China, anuncia a (re)criação da 'Doutrina Monroe 2.0', mais tarde rebatizada de 'Doutrina Donroe', em associação ao seu primeiro nome e ao sobrenome de James Monroe. O ápice de seus desvarios até o momento é o ousado ataque à Venezuela, com a maior reserva de petróleo do mundo e que havia 25 anos se afastado da influência dos EUA.
Não dá para disfarçar que, a despeito da pirotécnica e desproporcional ação militar contra a Venezuela, Trump e sua quadrilha -- com a covarde torcida de, digamos, 'inocentes úteis' da América Latina -- não quiseram repetir os erros cometidos por seus antecessores no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria, por exemplo, e deixaram, sob a mira de fuzis, a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez, até porque a rastejante María Corina, digo, 'Trumpina' Machado não tem, sequer, competência e estatura para governar um país das dimensões da Venezuela. Por essa razão, o 'agente laranja' vive a alternar postagens em suas redes sociais, ora louvando, ora ameaçando a estadista venezuelana -- isso para atender seu narcisismo mórbido, cada vez mais próximo de Nero, o desmiolado que ateou fogo em Roma, destruiu seu império e deu fim à própria vida.
13 QUE SE TORNAM 50
Os Estados Unidos são as 13 ex-colônias inglesas que em 1776 se libertaram do jugo inglês. Os 13 estados federados com capital Washington (em homenagem a um dos líderes da independência), em poucas décadas triplicaram seu território e em menos de 100 anos se tornam 50 estados, graças à cobiça de suas elites -- que se criam destinadas a triunfar sobre os demais povos da América (do Norte, Central e do Sul). Inclusive sobre os povos originários, que foram dizimados ou, depois de explorados e saqueados, escravizados como os africanos acorrentados pelos europeus em seu funesto comércio escravista. Durante o século XIX foram se expandindo para o Oeste, invadindo territórios de seus vizinhos mexicanos, também ex-colônia europeia (da Espanha), tomando-lhes, a partir de 1836, o que hoje corresponde à Califórnia, Novo México, Arizona, Nevada, Utah, Texas, Colorado, Wyoming, Kansas, Oklahoma e a 'compra' de Gadsden em 1856.
Criada um ano depois da independência do Brasil, a doutrina que parecia ser, a princípio, de proteção, pelos Estados Unidos, dos países norte, centro e sul-americanos recém-independentes das metrópoles coloniais (Espanha, Portugal, Inglaterra, França, Holanda, Bélgica, Dinamarca etc) revelou-se invasora, saqueadora e opressiva. Além do México, os países do continente americano que sentiram a mão pesada dos 'irmãos do norte' foram as nações que se libertaram do jugo espanhol (Cuba, Porto Rico, Panamá, Honduras, Costa Rica, Nicarágua, Colômbia e Venezuela) e da França (o Haiti, na época próspero e dos primeiros da América a se libertar do colonialismo europeu).
Caro/a leitor/a, Você acha que as populações da Groenlândia, Bermudas, Canadá, México, Guatemala, Belize, Cuba, Panamá, Nicarágua, Honduras, El Salvador, Porto Rico, Costa Rica, Haiti, Jamaica, Trinidad e Tobago, República Dominicana, Martinica, Venezuela, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Argentina, Uruguai e Paraguai -- cuja altiva população foi e é submetida à mais tirânica ação imperialista desde os tempos de Francisco Solano López -- morrem de amores pelos Estados Unidos? Quanto às suas elites bisonhas, não há dúvida de que ficam de quatro, igual María Corina Machado, para Donald Trump ou quem estiver na Casa Branca.
Sequer tocamos na trágica experiência da América Central e do Sul entre o final do século XIX e o século XX. Planejamento e execução de atentados como o que matou o presidente Omar Torrijos no Panamá e financiamento de golpes militares sangrentos contra presidentes democraticamente eleitos como Juan Bosch, da República Dominicana, em 1963; João Goulart, do Brasil, em 1964, e Salvador Allende, do Chile, em 1973. Na África, os crimes são ainda mais ousados, como a execução do ex-primeiro-ministro Patrice Lumumba, da República Democrática do Congo, em 1962, e Amílcar Cabral, em Guiné-Bissau, em 1973.
Voltaremos às cínicas intervenções estadunidenses em todo o Mundo, pois, talvez assim, com fatos e imagens, os inocentes úteis que teimam em justificar e defender crimes em série contra a humanidade cometidos pelas elites estadunidenses possam abrir seus horizontes e compreender por que é preciso que a humanidade pare o Nero laranja antes de que seja tarde para todo o Planeta. Sem essa de 'destino manifesto' ou 'povo eleito'...
Este texto é dedicado à memória de Amílcar Cabral, o líder de dois países africanos por ele libertados -- Cabo Verde e Guiné-Bissau --, assassinado em 20 de janeiro de 1973 em uma tocaia sob planejamento de países ocidentais, a pedido do já decadente regime fascista e colonial do Portugal salazarista, de triste memória, que quinze meses depois era deposto pelo Movimento das Forças Armadas Democráticas, sob o comando do General António de Spínola, na célebre Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974.
Ahmad Schabib Hany
domingo, 11 de janeiro de 2026
CINCO ANOS SEM PADRE PASQUALE FORIN
Cinco anos sem Padre Pasquale Forin
Em 10 de janeiro de 2021 o Padre Pasquale Forin se eternizou em Campo Grande, depois de lutar renhidamente contra a covid-19. Um generoso combatente da paz e da fraternidade entre as centenas de milhares de vítimas não só da pandemia, mas do negacionismo sórdido que ainda teima em vitimar a humanidade, inclusive no Brasil.
Dia 10 de janeiro de 2021 entrou para a história de Corumbá, Pantanal, Mato Grosso do Sul, Brasil, Itália e, sobretudo, a história dos movimentos sociais e pastorais católicas de todo o Planeta por causa da eternização do incansável e inspirador peregrino que generosamente fez da missão de religioso instrumento de empoderamento, protagonismo e transformação dos invisíveis, explorados, excluídos, oprimidos e criminalizados.
Em 2021, quando foi criado o Memorial das Vítimas do Coronavírus, fiz questão de enviar meu testemunho sobre a relevante e digna personalidade que foi e é o Padre Pasquale Forin. Verdadeiro Amigo e Companheiro, humilde, exemplar e incansável, cuja ausência é perceptível entre os desassossegados que tiveram o privilégio e a honra de contar com a sua iluminada Companhia. Uma pena que muitos que se beneficiaram de suas inúmeras iniciativas tenham se esquecido até da data de sua eternização.
Em homenagem à sua inspiradora memória, o Observatório da Cidadania Dom José Alves da Costa, por unanimidade, decidiu que, a partir de 2027, esta data será destinada ao Festival da Cidadania Padre Pasquale Forin, em que um conjunto de atividades serão realizadas em Corumbá, Ladário, Campo Grande e demais municípios onde o querido Amigo e Companheiro deixou seu rastro de peregrino incansável.
Por outro lado, os coletivos e espaços públicos dos quais o saudoso Amigo, com discrição e humildade, participou passarão a ter estas novas denominações, passando a compor a sua estrutura em coordenação colegiada única:
Observatório da Cidadania Dom José Alves da Costa
Pacto Pela Cidadania Padre Pasquale Forin
Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais Padre Ernesto Saksida
Movimento Viva Corumbá Jorge José Katurchi
Sociedade dos Amigos da Cultura Augusto César Proença
Centro de Desenvolvimento Cultural e de Estudos Contemporâneos Heloísa Urt
Comitê Pró-Cultura de Corumbá Lincoln Gomes de Souza
Comitê Corumbá Pela Paz Andrés Corrales Menacho
Para concluir, postamos o texto publicado em 24 de fevereiro de 2023 no portal Inumeráveis, do Memorial das Vítimas do Coronavírus (disponível pelo link <https://inumeraveis.com.br/pasquale-forin/>):
Pasquale Forin
1936 - 2021
Humilde peregrino, veio da Itália direto para o Coração do Pantanal inspirar o protagonismo dos excluídos.
O Padre Pasquale Forin foi um sacerdote salesiano ligado à defesa dos Direitos Humanos que fundou na década de 1980, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, o Centro de Defesa de Direitos Humanos Marçal de Souza e instalou, juntamente com outros salesianos, a sede estadual da Comissão Pastoral da Terra, para apoiar os trabalhadores rurais sem-terra.
Em 1987 foi designado pároco da Paróquia São João Bosco, em Corumbá, onde se aposentou, em 2014, permanecendo nessa mesma diocese até os últimos dias. Nessa cidade foi Vigário Geral no episcopado de Dom José Alves da Costa e de Dom Segismundo Álvarez Martínez; fundou a Rádio Comunitária FM Pantanal, a Casa de Recuperação Infantil Padre Antônio Müller (CRIPAM), o Centro de Apoio à Infância e Juventude Madre Mazzarello (CAIJ) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT) regional do Pantanal.
Ao lado do Padre Osvaldo Scotti e da Antropóloga Iara Penteado (FUCMT), ajudou para o reconhecimento da existência da etnia Guató no Pantanal, expulsa da Ilha Ínsua durante o regime de 1964, cuja líder e matriarca Dona Josefina Ferreira perambulava pelos escritórios da FUNAI e ministérios em Brasília, até que, com a ajuda do Conselho Indigenista Missionário conseguiu o reconhecimento dessa etnia e o retorno às terras ancestrais no início da década de 1990.
Entre 1993 e 2021, quando faleceu, foi fundador e Coordenador-adjunto do Comitê de Corumbá e Ladário da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e Pela Vida (criada pelo Sociólogo Herbert de Souza, o Betinho), bem como do Pacto Pela Cidadania (Movimento Viva Corumbá), que articulava os mais diferentes setores da sociedade civil para dar-lhes visibilidade e protagonismo, tendo como principal articulador e seu primeiro Coordenador-Geral o então Bispo Diocesano Dom José Alves da Costa.
Para seu amigo Ahmad Schabib, Padre Pasquale foi "um homem de rara sensibilidade humana e cristã, um importante articulador e incentivador do protagonismo cidadão de diferentes faixas etárias, pois, mesmo sendo pároco em uma distante diocese do Pantanal Sul-Mato-Grossense, apoiou o Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua (MNMMR) na articulação Criança Constituinte Prioridade Absoluta, que originou a concepção da proteção integral do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) em 1990".
"Além disso, deu apoio incondicional ao Fórum Permanente de Entidades Não Governamentais de Corumbá e Ladário (membro da Plenária Estadual de Fóruns de Políticas Públicas de Mato Grosso do Sul), que efetivou o controle social de políticas públicas como Saúde, Assistência Social, Direitos da Criança e do Adolescente, Cultura, Direitos Humanos, Direitos dos Afrodescendentes, Direitos dos Povos Originários, Direitos dos Idosos, Direitos da Juventude, entre outros.”
Seu amigo conta também que a idade avançada não impediu Pasquale de atuar como voluntário junto às crianças e adolescentes atendidos pelo CAIJ, bem como de permanecer envolvido na realização das atividades natalinas da comunidade do Cristo Redentor, onde está localizada a sede do projeto social destinado à proteção social da população infanto-juvenil em situação de vulnerabilidade econômica, educativa e social.
Por coincidência, ou não, um homem que lutou tanto pela garantia dos Direitos Humanos, teve suas últimas atividades na data em que se comemora o Dia Internacional dos Direitos Humanos. Em 10 de dezembro de 2020, pela manhã, deixou uma mensagem aos seus contatos e, ao final da tarde, foi internado na Santa Casa de Corumbá. De lá foi transportado para Campo Grande, onde, exatamente um mês depois, faleceu. Seu corpo foi sepultado em Campo Grande, no jazigo da Missão Salesiana de Mato Grosso.
Concluindo sua homenagem, o amigo Ahmad Schabib desabafa: “Todas as obras sociais de Padre Pasquale permanecem em atividade, embora sem sua presença inspiradora tenham sofrido um considerável arrefecimento, sobretudo o Centro de Documentação e Apoio aos Movimentos Populares (CEDAMPO), situado em Campo Grande.”
Pasquale nasceu na Itália e faleceu em Campo Grande (MS), aos 84 anos, vítima do novo coronavírus.
Testemunho enviado pelo amigo de Pasquale, Ahmad Schabib Hany. Este tributo foi apurado por Andressa Vieira, editado por Vera Dias, revisado por Maria Eugênia Laurito Summa e moderado por Ana Macarini em 24 de fevereiro de 2023.
domingo, 4 de janeiro de 2026
Quando chamam o petróleo de "democracia" e a pilhagem de "civilização"
Quando chamam o petróleo de 'democracia' e a pilhagem de 'civilização'
Jornalista e escritor, autor de "As veias abertas da América Latina", Eduardo Galeano advertira, há mais de 50 anos, que os povos "salvos" pelos Estados Unidos se transformaram em manicômios ou cemitérios. Ex-assistente de Luther King, pré-candidato presidencial em 1984 e 1988, Reverendo Jesse Jackson alertou 10 anos atrás que, em seu país, "os pobres estão ficando cada vez mais pobres, os ricos cada vez mais ricos e a 'classe média' a se afundar".
Não é de hoje que as potências ocidentais, de passado colonialista irrefutável, costumam chamar as riquezas naturais que cobiçam de 'democracia'. Da mesma forma, a sua pilhagem -- isto é, saque, rapinagem, exploração, roubo -- de 'civilização', que também já chamaram de liberdade, progresso e modernidade. Antes dos Estados Unidos -- que já vinham saqueando o México e os países do Caribe --, foram a Inglaterra (depois Grã-Bretanha, hoje Reino Unido), França, Bélgica, Itália, Alemanha, Espanha e Portugal. Depois do Congo Belga, foram Nigéria, Libéria, Gana, Serra Leoa, Ruanda, Guiné, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique, Angola, África do Sul, Chad, Saara, Argélia, Líbia, Sudão, Egito, Palestina, Síria, Líbano e Afeganistão (pós-União Soviética).
Os Estados Unidos e os aliados da OTAN passaram décadas acusando o governo da Venezuela de não ser democrático, financiando uma oposição inconsistente que não representa necessariamente os interesses da população daquele país. Donald Trump, um psicopata temido e pedófico confesso, não hesitou em invadir o território soberano para fazer diatribes e rasgar definitivamente a Carta das Nações Unidas, aprovada quando da criação da ONU no pós-guerra de 1945.
A arrogância e a certeza de impunidade com que as potências ocidentais têm agido -- sobretudo os Estados Unidos -- depois da dissolução da União Soviética, em 1990, é de causar perplexidade e indignação. O acintoso e cínico ataque à Venezuela e o sequestro de sua maior autoridade no primeiro final de semana do ano recém-iniciado não só revelam a verdadeira face do herdeiro do colonialismo europeu (em cuja propaganda, pela indústria cultural, sempre se autoproclamou o porta-voz legítimo da civilização, da democracia e da justiça), como também indisfarçável desespero pelo processo de decadência, de perda da hegemonia econômica e decadência social.
O consumidor do conteúdo midiático ocidental (as mentiras embrulhadas em papel celofane -- para os mais novos, papel de seda --, e, no caso da indústria cinematográfica de Hollywood, efeitos especiais), diferente do leitor crítico -- perspicaz porque procura compreender criticamente tudo o que é divulgado como verdade absoluta --, talvez tenha dificuldade de compreender por que a "operação policial" feita em nome do combate ao narcoterrorismo é pura farsa, pura ilegalidade.
Com a sucessão de operações estapafúrdias e pirotécnicas Trump está violando sistemática e acintosamente cláusulas pétreas do direito internacional -- respeito à soberania nacional, paz e segurança regional, autodeterminação dos povos e à integridade da população e dos dignitários de Estados constituídos --, escritas no pós-guerra de 1945, quando a humanidade despertou perplexa dos crimes causados pela violência nazista, fascista, salazarista e franquista. Por causa da chamada Guerra Fria, António Salazar e Francisco Franco -- dois cúmplices de Hitler e Mussolini -- não foram presos, julgados e condenados em Nuremberg. Tanto que os dois ditadores, de Portugal e da Espanha, morreram impunes, como Alfredo Stroessner e Augusto Pinochet. No caso da Espanha, foi um absurdo que o ditador impôs a volta da monarquia, dando um golpe no rei que deveria ter assumido e determinando que o filho, pedófilo confesso, fosse coroado sem que o pai tivesse abdicado ou falecido, e logo depois protagonizou um escândalo abafado por décadas, com a morte suspeita de uma atriz menor de idade, Sandra Mozarowsky, que estava grávida e ela dizia que era "dele".
EDUARDO GALEANO E JESSE JACKSON
Além do precedente perigoso que abriu com a invasão de um país soberano e o sequestro de sua maior autoridade, Trump violou as normas constitucionais dos Estados Unidos, pois em qualquer circunstância o inquilino da Casa Branca deve comunicar previamente o Capitólio para realizar qualquer ato que caracterize ação militar em território estrangeiro. Nos últimos dias do ano ele já estava às voltas de fortes críticas, inclusive dentro de seu próprio partido, por causa da crise econômica e das repercussões sociais (isso sem entrar na questão do Caso Epstein, em que é acusado de pedofilia por correligionários que representam o chamado núcleo duro do Partido Republicano).
"Cada vez que os Estados Unidos 'salvam' um povo, o deixam convertido em manicômio ou cemitério." Eduardo Galeano, do alto de seus 50 anos de lida, de luta e de Jornalismo crítico, o disse com total autoridade. Não nos esqueçamos de que ele foi o autor de "As veias abertas da América Latina", obra com a qual, pelo menos as gerações das décadas de 1970, 1980 e 1990 acordaram para a realidade atroz e perversa de um império tirano, hipócrita e etnocêntrico como sua funesta metrópole, a Inglaterra dos piratas e genocidas que promoveram o pós-renascimento -- a acumulação capitalista do mercantilismo e da 'revolução industrial' -- a ferro e fogo, sem compaixão ou comedimento.
2026 inicia como terminou 2001. Desesperado ante sua inevitável decadência e a inquestionável ascensão econômica e militar da China, o imperialismo reage furiosa e cegamente, mais uma vez, contra os que ousam afrontá-los soberana e legitimamente. Porque os piratas e corsários do século XXI não são "policiais do mundo" -- como eles cinicamente se proclamaram quando conseguiram a dissolução da União Soviética e do Pacto de Varsóvia, em 1991, e impuseram a "pax americana", mais parecida à paz dos túmulos (Afeganistão, Iraque, Líbia, Egito, Sudão, Congo, Iêmen, Líbia, Síria, Líbano e Palestina que o digam).
Nossa ingenuidade coletiva de habitantes do Hemisfério Sul nos levou a, mais uma vez, sermos tomados de surpresa e perplexidade pela ação predadora e cínica da nefasta potência que só pratica a cobiça e promove infelicidade para o resto da humanidade.
Há alguma dúvida sobre isso? Os EUA alguma vez se engajaram em campanhas de enfrentamento da fome e outras crises humanitárias, em algum continente? Não. O respeitável leitor pode esquecer a "Aliança para o Progresso" (depois USAID), de triste memória, criada por John Kennedy para contrapor à crescente rebeldia dos povos do então chamado "Terceiro Mundo" quando, em plena Guerra Fria, os líderes do Movimento dos Países Não Alinhados -- Jawaharlal Nehru, da Índia; Gamal Abdel Nasser, da República Árabe Unida (Egito); Broz Tito, da Iugoslávia, e Sukarno, da Indonésia -- promoveram as conferências de Bandung e Belgrado e a adesão de dois terços dos Estados-membro da ONU.
Mais uma pergunta: alguma vez os Estados Unidos usaram sua tecnologia e suas riquezas -- resultado de pilhagem ao longo dos últimos três séculos (o México e os países do Caribe que o digam) -- para socorrer a humanidade de flagelos como a pandemia de covid-19? Nem pensar! O governo dos EUA, igualmente que o desmiolado que desgovernou o Brasil na mesma época, não só se negou a promover ações ou implantar políticas públicas de saúde e assistência social, como proibiu instituições de pesquisa públicas a desenvolver estudos para tal objetivo e, pior, retirou o país da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Quanto aos EUA serem uma potência nefasta, não fui eu quem o disse. Há mais de meio século, o Reverendo Jesse Jackson, ex-pré-candidato presidencial de seu país em duas primárias (para 1984 e 1988), acintosamente preterido por "correligionários" do Partido Democrata, em entrevista ao extinto (e original) "New-York Tribune", época em que era assistente do saudoso mártir Martin Luther King (assassinado em 1968), em seu sábio tom ponderado, assim o disse. É dele a frase rebelde: "Erga a cabeça. Jamais se renda."
A propósito, ao não conseguir encontrar nos arquivos da internet a edição do jornal com a emblemática entrevista da década de 1960, compartilho com o/a leitor/a parte de uma entrevista concedida para a Jornalista Joanna Gill, do EuroNews, em 2015, em que, coincidentemente, trata de Cuba, Irã, Venezuela, Julian Assange e Trump, mas o que repercutiu foram as relevantes afirmações de que "é mais barato investir na diplomacia que nas guerras", "na questão dos direitos humanos, não podemos impor a Cuba o que não cumprimos nos Estados Unidos", "é melhor falar sobre as questões dos direitos humanos em vez de isolar os países", "a repressão policial nos EUA é mais uma questão de classe que de uma questão de raça" e "aqui [EUA] os ricos estão cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres e a classe média está a se afundar". O Reverendo Jesse Jackson está vivo, mas padece de uma doença degenerativa, por tal razão sua voz sensata não pôde ser ouvida nestes insólitos tempos.
Ahmad Schabib Hany
quarta-feira, 31 de dezembro de 2025
QUANTO, AFINAL, VALE A VIDA?
QUANTO, AFINAL, VALE A VIDA?
Os valores civilizacionais nos ensinam que a Vida não tem preço. Mas seu valor é incomensurável. Sobretudo, quando líderes bizarros disseminam intolerância e terror, induzindo pessoas pouco ou nada sensatas a enveredar pelos caminhos do ódio, soberba e arrogância.
Diante de fatos tristemente acontecidos nos dias derradeiros de 2025, permiti-me a liberdade de substituir o texto de final de ano, até em respeito às cidadãs e aos cidadãos com quem convivemos há sessenta e um anos neste verdadeiro Paraíso na Terra.
Somos o que a Vida nos torna. Porque a Vida, mais que mera existência, tem valor imensurável -- impossível de ser medida (a Vida), precificada, sob quaisquer critérios ou parâmetros --, e que só faz sentido se interligada à existência dos semelhantes e das demais espécies de seres vivos, em conjunto; jamais de forma isolada, individual.
A Natureza nos ensina que só há indivíduo porque há coletivo, algo indissociável que a sociedade de consumo com o seu pernicioso vício de origem -- a livre competição e a presunção de que só as "cabeças" é que conquistam o "mérito", tudo mito, hoje derretendo nas metrópoles "capetalistas", transformadas em território medievalizado obscurantista e cheio de sortilégios, superstições -- banalizou, como demonstrado no ditado "cada um por si e Deus por todos".
A propósito, em janeiro de 2019, o querido Anfitrião do Movimento UFPantanal, Dom Francesco Biasin, Administrador Apostólico da Diocese de Santa Cruz de Corumbá nomeado pelo saudoso Papa Francisco, escreveu um sugestivo artigo tendo por título esse ditado no portal da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Sabiamente alertava para o cúmulo do individualismo ante o nefasto decreto de liberação da posse e do uso de armas pelo governo anterior. "Infelizmente o ditado 'cada um por si e Deus por todos' pode ser aplicado também à vida das pessoas e levá-las a fazer justiça com suas próprias mãos. o individualismo ou os interesses podem induzir a eliminar quem atrapalha!"
Pois é, o individualismo exacerbado destes tempos nada generosos, em que praticamente tudo é justificável para "vencer na vida" -- isto é, se tornar potencial superconsumidor numa sociedade em que o mercado é praticamente a maior divindade cujo fator de felicidade e realização é a capacidade de compra, de consumo e, até, de ostentar um nível de acúmulo obsessivo de bens supérfluos e descartáveis que simbolizam o "sucesso".
Não por acaso as pobres (no sentido mais amplo, por favor) celebridades do futebol, do "showbiz", da moda e da mídia digital ("youturbers" e congêneres) e da política, com honrosas exceções, vivem a colecionar gafes e condutas que beiram a falta de noção e de caráter -- porque caráter se forja com o convívio não só familiar e comunitário, mas profissional e social --, e isso nos impele uma urgente mea culpa geracional: as novas gerações, em sua imensa maioria, padecem de autocrítica, sensatez e leitura, muita leitura que os torne capazes de refletir, refletir, refletir, refletir...
Nada que os vitimize, pois são protagonistas de sua própria história. Mas o que as oportunidades nos influenciam -- e, a bem da verdade, acabam por nos (de)formar --, por causa de nossa condição de seres mutáveis e, mais ainda, volúveis: se não nos fortalecermos racionalmente, agimos como manada, como rebanho: seguimos atrás de quem está na frente, como por impulso.
Há também algo que a chamada "civilização ocidental" dissolveu como sonrisal em copo de hipocondríaco: o respeito ao "outro", à alteridade. Ou esquecemos que os condenados de Portugal e da Espanha, quando enviados para os novos domínios de suas majestades reais -- os catolicíssimos reis de Avis, Castela e Aragão --, enxergavam como seres inferiores, pagãos, sem alma, silvícolas, e, portanto, passíveis de serem massacrados, roubados, pilhados, chantageados, enganados e escravizados os anfitriões (os povos originários que generosamente os acolheram como deuses por seus olhos azuis, cabelos louros e barbas fartas) na América, Ásia e África?
Com sinceridade, o que vemos na essência das atitudes recorrentes de Jair, Tarcísio, Castro e Caiado, para citar alguns dos "paradigmas da nova política" -- gestados e paridos pela narrativa do golpe da Lava-Jato e Eduardo Cunha (este e seus convivas, sim, corruptos de carteirinha com folha corrida de fazer inveja a quadrilheiros de todos os matizes), nada mais é que a reprodução daquilo que a historiografia ensina épica e apologicamente como desbravadores, pioneiros e bandeirantes. O pior é que certos religiosos abençoam, jornalistas palacianos justificam, ideólogos mistificam, militontos imitam e os desavisados idolatram.
Desde os mais remotos tempos, as culturas ancestrais nos ensinam que inimigo mesmo está dentro de nós, isto é, somos nós quando deixamos que o nosso lobo domine o carneiro que habita no nosso âmago. Além do mais, existe algo que os autodeclarados cristãos que seguem a cartilha do extremismo não têm rezado: os Dez Mandamentos, ou Decálogo.
Décadas atrás, pouco antes de conhecer -- graças ao querido Amigo Armando Lacerda --, o saudoso Dom José Alves da Costa e todos os religiosos que participaram da criação do Comitê de Corumbá e Ladário da Ação da Cidadania Contra a Fome e Pela Vida, uma senhora que mais tarde se tornou Amiga muito querida, então assessora da Fundação de Assistência Social de Corumbá, me questionara sobre religiosidade, ao que respondi que, embora não adotasse alguma denominação, aprendera com meu saudoso Pai, um muçulmano que era um humanista lúcido, a tentar praticar os Dez Mandamentos, o que era, por si só, muito difícil.
Por tudo isso, vejo com profundo pesar o o cinismo e a má-fé desses fariseus da atualidade, que, usando em falso o nome de Deus, vivem a praticar verdadeiras injúrias e blasfêmias com a maior desenvoltura. Sem qualquer constrangimento ou constrição. Além de o fazerem conscientemente, de forma deliberada, se sentem protegidos em uma suposta impunidade com a sua conduta totalmente desavergonhada e até criminosa.
A torpe atitude do edil corumbaense que ganhou triste notoriedade nacional ao agredir verbalmente, atirar os salgados ao chão, destruir o material de trabalho (bicicleta e caixa de isopor) e coagir publicamente um salgadeiro, um humilde cidadão que se vive na informalidade é por razões que independem da vontade dele -- mas da ausência de políticas públicas de fomento à geração de trabalho e renda, competência do Estado que o edil, como membro do Legislativo local pode e deve acionar mediante o mandato popular de que é detentor há cinco anos, pois está no início de seu segundo mandato conquistado nas urnas --, não é um ato isolado: é decorrência da corrosão democrática gestada nos últimos anos, em que a força da razão tem sido substituída pela razão da força.
Esse deplorável caso, a ser devidamente esclarecido, acende um sinal de alerta para cidadãos sinceramente comprometidos com a Democracia e as instituições que são guardiãs de sua manutenção. Primeiramente, porque cabe ao Poder Legislativo fazer a necessária interlocução com os vários segmentos da sociedade, pelo que um membro seu precisa, no mínimo, ter sensibilidade ao lidar com problemas sociais decorrentes da fragilização das instituições nos últimos anos. Portanto, a melhor resposta imediata é a realização de iniciativas institucionais para propor um conjunto de iniciativas voltadas para a geração de emprego e renda no município -- mais que medidas repressivas, é urgente a criação de políticas criativas para elevar o nível da renda em nossa região.
Por outro lado, não obstante as sanções legais e decisões políticas decorrentes do episódio, é fundamental que partidos políticos dos diversos matizes adotem de imediato uma série de iniciativas para formar seus quadros como cidadãos plenos, conhecedores da função do vereador, quais suas prerrogativas e seus limites à luz do Estado Democrático de Direito. Somos das gerações que, na juventude, mobilizaram diferentes segmentos sociais para que a Assembleia Constituinte refletisse com fidedignidade as reais demandas da população brasileira. É preocupante como as novas gerações, independentemente de escolaridade, desconhecem a história recente do Brasil.
Para concluir, lamentavelmente, notícias preocupantes sobre a saúde do Professor Oto Milton, há décadas ligado à Igreja Católica em Corumbá e agora aposentado, dão conta de que seu estado é crítico. Segundo Amigos, ele foi atropelado por uma motorista no dia 29 de dezembro e à noite foi trasladado a Campo Grande por causa da gravidade do estado clínico (traumatismo craniano) e os recursos médicos na capital. Encontra-se entubado e em terapia intensiva. Homem de fé e sempre solidário, há diversas correntes de oração pela sua pronta recuperação. Fé e solidariedade por ele e também pela Amiga Neide Boneca, que sofreu infarto no dia 28 e também foi trasladada a Campo Grande. Incansável lutadora social que o saudoso Amigo Andrés Corrales Menacho formou na Escola da Cidadania, Neide é porta-voz atuante do movimento comunitário em Corumbá. Vida longa e muita saúde, e um Ano Novo de vitórias, conquistas e realizações para todos e todas!
Ahmad Schabib Hany
quinta-feira, 25 de dezembro de 2025
FORÇA E CORAGEM
FORÇA E CORAGEM
O amor e a caridade, nestes tempos de renascimento do nazissionismo, se transformaram no binômio “Força e Coragem” com que Padre Júlio Lancellotti há décadas saúda todos os com quem se depara em seu imprescindível serviço de acolhimento de pessoas em situação de rua — porque ninguém escolhe as ruas para viver, e porque ninguém finge ser solidário de quem só tem as ruas para viver e conviver. É sobre isto a modesta e despretensiosa reflexão de Natal deste ano, na esperança de que os dias que se sucederem sejam de vivência sincera no legado de Jesus, do amor ao próximo e da caridade como forma de expressão prática de seus ensinamentos, ainda que os autoproclamados paladinos de um neocristianismo — distante, aliás, do Novo Testamento e próximo demais do sionismo de Benjamin Netanyahu e da plutocracia de Donald Trump — o chamem de comunismo.
“Força e coragem!” Eis o binômio com que Padre Júlio Lancellotti manifesta sua vivência em nossos insólitos e cruentos tempos no legado de Jesus, o Menino, a ser lembrado neste Natal — cuja celebração o capitalismo tornou a aparentemente inocente e inofensiva festa de Papai Noel, que chega de trenó voando, todo vestido de vermelho, cores da marca de refrigerante símbolo do consumismo e da cobiça dos assim chamados tempos modernos pelo saudoso e genial Charles Chaplin, praticamente um século atrás.
Pois é. No ano em que perdemos o Papa Francisco, pouco tempo depois de que o igualmente querido Dom Mauro Morelli também nos deixara. Mas é com base na práxis do Padre Júlio Lancellotti — o sacerdote que acolheu as pessoas que moram nas ruas de São Paulo e hoje é alvo de ataques da parcela da extrema-direita hipocritamente católica, mas que tem muito ódio para destilar — que iniciaremos nossa reflexão de Natal, símbolo maior da cristandade, ainda que hoje seja refém do assédio dos neopentecostais fundamentalistas, sócios do sionismo e da mais cínica e deslavada teologia da dominação, que substituiu a não diferente teologia da prosperidade, tão pernóstica quanto a posterior.
E por que iniciativas solidárias como as de Padre Júlio Lancellotti em São Paulo incomodam os fariseus contemporâneos? A extrema-direita — incapaz de construir algo — não disputa projetos, disputa narrativas: vive a criar histórias da carochinha para suas legiões, que não conseguem ler três linhas, quanto mais um parágrafo ou um texto de lauda e meia. Com todo o respeito pelas aves tropicais mais sedutoras da Terra, mas essas hordas, feito papagaios, vivem a repetir o que lhes é replicado nas redes sociais do modo mais insano possível — se o robô da inteligência artificial pedir para matar sua própria família como demonstração de fé e obediência, o fazem sem qualquer titubeio.
Ou o(a) gentil leitor(a) crê que é milagre o surgimento de hordas de fanáticos negacionistas não pensantes? Tive a honra e felicidade de conviver com Amigos que, formados na hermenêutica bíblica, explicavam lucidamente as parábolas, hoje interpretadas ao pé da letra por gente que sequer tem iniciação teológica. Feliz daquele que habitua ler — e fazer uma interpretação sadia —, o Novo Testamento, parábolas reveladoras, como aquela que diz que Jesus veio para separar o joio do trigo — não para unir, mas para acolher os desprezados —, ou as diversas metáforas que insistem em que sua mensagem de amor e caridade pelo próximo iletrado, ignorado, não foi para os eleitos (ou melhor, autoproclamados eleitos), mas para o gentio, o humilde, o leproso.
Em julho de 1994, pude conhecer, além de Dom Mauro Morelli e Herbert de Souza, Betinho, os voluntários da emblemática obra do Padre Júlio Lancellotti presentes à inovadora e desafiante iniciativa da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), quando o Conselho Diocesano de Corumbá, graças à iniciativa generosa de quatro Amigos que não mais estão entre nós — Dom José Alves da Costa, Padre Pasquale Forin, Padre Ernesto Saksida e Padre Antônio Müller —, me designou honrosamente representante regional da Segunda Semana Social Brasileira à fase nacional, em Brasília.
Entre essas queridas e queridos Amigos reunidos durante o relevante processo de construção e necessárias reflexões de viva voz e coletivamente na fase regional da Segunda Semana Social Brasileira e criação do Comitê de Corumbá e Ladário da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida encontram-se o Pastor Marcelo Moura da Silva e o Pastor Fernando Sabra Caminada, a Irmã Antônia Brioschi e a Irmã Zenaide Britto que estão em plena atuação, ainda que a alguns quilômetros de distância, presentes, atentos, para manter reflexões indispensáveis para a Vida, sobretudo nestes tempos adversos.
Ora, se ainda estivessem entre nós, além do Reverendo Jaime Wright, Dom Luciano Mendes de Almeida e Dom Ivo Lorscheiter — ambos ex-presidentes da CNBB e sacerdotes que, ao lado do Reverendo Jaime Wright, inspiraram muitos religiosos de diferentes denominações —, também teriam sido alvo da sanha medievalesca desses extremistas que se dizem paladinos da teologia e da ética. Não temos por que entrar nesses meandros, cujo labirinto costuma causar muitos dissabores. Usar da racionalidade e ser minimamente ponderado contribui para a superação destes sucessivos desencontros que nada ajudam a humanidade e, sobretudo, as maiorias oprimidas, exploradas, saqueadas e massacradas, em todos os continentes, em particular na África, América, Ásia e Oriente Médio.
Assim como o Natal não é uma criação ocidental, mas um fato acontecido na Palestina sob ocupação do império romano, do ocidente, as tiranias que foram plantadas na África, Ásia — portanto, Oriente Médio — e América existem porque há um império que lucra com tudo isso, e como lucra. Embora não haja império que dure um milênio incólume, existe uma sucessão de impérios cujas elites — cortes, obviamente, e monarcas — se beneficiaram sem qualquer constrangimento. É disso que se trata esta necessária reflexão. É sobre isto que também precisamos refletir, pois este mundo do jeito que está já não mais nos diz respeito e, pior, não respeita as grandes parcelas da população humana e das demais espécies de seres vivos do Planeta.
Neste momento em que a humanidade se volta para Gaza, Sudão e Congo — mas a violência iminente também paira na Venezuela, Cuba e Nicarágua —, urge que os governos e segmentos da sociedade civil sensíveis aos clamores populares façam interromper a escalada violenta e cruel que desaba sobre os corpos indefesos e inofensivos de bebês, crianças, adolescentes e mães e, ainda, sobre a consciência da espécie humana, cujas classes proletárias se levantaram em defesa da paz e da justiça no Planeta, sob pena de pormos a perder toda a evolução e experiência civilizacional acumulada ao longo dos últimos milênios.
A Paz e a Vida nos pertencem por direito, defendê-las é um dever. Lembremo-nos que ao nascer um bebê renasce a esperança e se renovam os ideais de Justiça e Clemência, segundo a ancestralidade da maioria dos povos da Terra. Feliz Natal para todos, com amor, caridade, força e coragem!
Ahmad Schabib Hany
domingo, 21 de dezembro de 2025
"ROBSON LINS, VOZ SERENA E OLHOS QUE ESCUTAVAM" - BOSCO MARTINS
"ROBSON LINS, VOZ SERENA E OLHOS QUE ESCUTAVAM"
O Dr. Robson Ajala Lins foi, até o último suspiro, o dentista de Manoel de Barros - poeta das miudezas e de sua querida Stella. Mas chamá-lo apenas de dentista seria pequeno demais para um homem assim.
Antes de qualquer ofício, Robson era um homem de mansidão, de voz serena e olhos que escutavam — um olhar que parecia vir das águas paradas do Pantanal, do tempo espalhado em lentidão, da sabedoria que nasce no barro e na quietude.
Ele era um contador de histórias. Histórias que respiravam a fronteira, que tinham o cheiro de Corumbá, cidade onde viveu por tantas décadas ao lado de Regina, sua companheira não apenas no consultório, mas na vida inteira. Eram narrativas tão vivas, tão impregnadas de humanidade, que algumas delas foram colhidas pela escuta dourada do poeta e transfiguradas em personagens de seus versos — migalhas do real que viraram ouro na alquimia da literatura.
Como a do vaqueiro Santiago, que montou um cavalo famanaz, esporou, chicoteou, e o animal corcoveou de lado e de frente, desafiando o chão. Ao passar pelo galpão, os peões viram, marcada a ferro e fogo — ou melhor, a espora — na paleta do bicho, a frase enigmática: “Até aqui Santiago veio bem.” Lenda que atravessou rios e reinventou nomes — mais adiante, em Dourados, o mesmo peão já respondia por Laquicho.
Conheci Robson em seu duplo ofício: dentista tradicional, homeopata e dos primeiros voluntários dentista a integrar as Expedições do Instituto Alma Pantaneira.
No mesmo consultório onde ele e Regina cuidavam dos sorrisos de Manoel e Stella, dividiam espaço com meu cunhado, Dr. Pedro Ávila, e com a Dra. Vilma Brambilla Ávila, guardiões dos meus dentes por uma vida inteira. Ali, entre uma restauração e outra, Robson fazia mais que devolver dentes: ele me emprestava mundos. Histórias saborosas, improváveis, cheias de vida — pequenos presentes que guardei como quem guarda pérolas.
E agora imagino que essas histórias, sementes plantadas na terra úmida da memória, seguem frutificando. Em algum lugar além do tempo, Robson encontra, sua gente pantaneira,
seus antigos clientes e companheiros de prosa — o poeta, a esposa, os vaqueiros de suas narrativas — e recomeçam a tecer, com fios de luz, os causos que o céu agora ouve.
Vai com Deus, Robson. O Pantanal agradece — não apenas a prosa, mas o silêncio entre as palavras, o ouvido atento, o homem que sabia que um sorriso guarda, às vezes, mais que dentes: guarda uma história inteira.
Bosco Martins
Jornalista e escritor
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