Para não 'chorar pelo leite derramado' do Riachuelo
Mais uma vez Campo Grande impõe sua hegemonia provinciana e escancara pôr abaixo a histórica arena de artes e cultura que fez do bastião vanguardista do Mato Grosso uno usina de talentos a iluminar inclusive tempos sombrios do regime de 1964. Qual a razão dessa desrazão? Implantação de um 'sistema de tratamento de lodo'? Que nosso patrimônio histórico-cultural vá para o lodo?
"Eu tenho em mim uma razão, / eu vejo em ti indecisão, / então lute, dispute / por teus ideais..." Composição de Ênio Conturbia e interpretação de Carlos Lima, cantor carioca de MPB, vencedora do Festival da Canção de 1977, no sagrado templo da arte e da música, o Riachuelo. Outro destacado concorrente foi Sidney Rezende (companheiro da biomédica Maria da Graça Leão, a querida Dadá), que ficou em segundo lugar com "Cajado" e prêmio de melhor letra. Mais que a interpretação, "Uma razão" venceu "Cajado" pelo senso de oportunidade e a eloquência da mensagem, representativa do contexto político do Brasil.
Quarenta e nove anos depois, o palco solene daquele e de muitos outros fatos e eventos icônicos da arte, cultura e história está na iminência de ser demolido, por decisão forasteira, para virar estação de tratamento de lodo. Estação por estação, lembra-se o perplexo leitor das promessas quando Fernando Henrique Cardoso anunciou a privatização da Rede Ferroviária Federal? Diziam que era 'progresso', talvez dos bolsos deles, os burocratas que se escondem por trás dos políticos 'modernos' de plantão...
Mal sabem esses 'luas pretas' -- jargão da lavra de Leonel Brizola -- que aquele clube, santuário da cultura local, e não lodal, foi o lócus da cidadania para o alvissareiro anúncio, pelo (maiúscula!) Governador Wilson Barbosa Martins, da construção, em 1983, da BR-262 pelo seu governo, mesmo sendo uma rodovia federal. É claro que os fãs do 'sertanejo universitário' não têm noção de aquele palco ter sido cenário do início de carreira de talentosos cantores e conjuntos musicais inesquecíveis -- como MJ-6, Django, Arame Farpado e Terra Branca --, de shows de ícones da MPB como Emílio Santiago, divas da Jovem Guarda como Wanderléa, ídolos do iê iê iê como Wanderley Cardoso, lendários sambistas de escolas de samba cariocas, atrizes como Márcia Maria -- a eterna 'Veridiana' de 'Os deuses estão mortos' --, memoráveis lutas de boxe com a participação de Eder Jofre, além de torneios esportivos, eventos escolares, como 'Ritmos' do IBEC/Objetivo, e festas de confraternização de conclusão de curso de diversas gerações de profissionais de várias áreas.
Tudo sucata, abandono, perigo. É o que sobra para a população de Corumbá: prédios abandonados, depredados, transformados em locais ermos, de usuários de alucinógenos e trincheira para os descartados pela sociedade de consumo e do 'sabe com quem está falando?'; trilhos saqueados, cobertos de matagal, sem um mísero cuidado, qualquer manutenção e sinalização. Não por acaso, causou, em 4 de dezembro de 2019, a trágica e injusta morte da jovem Professora Élida Aparecida Campos, coordenadora pedagógica da APAE e que se preparava para integrar o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente. Seus familiares até a presente data não receberam indenização, sequer condolências ou um sincero pedido de desculpas, decorridos quase sete anos de dor e agonia.
Em tempos do vil metal, "tudo tem seu preço", é o que dizem -- e 'crau!', em cima dos desavisados --, pois o lucro vai para os bonitões e o prejuízo financeiro fica conosco, a população. Houve, não só com a privatização da Noroeste, da Bacia e da Metamat, perda de empregos formais bem remunerados com plano de saúde e moradia, urbanização e contrato social. Fez a massa salarial de Corumbá definhar, áreas imensas virarem território livre do perigo, do saque, embora saque maior hoje vejamos nas 'emendas secretas' e nas associações de políticos ditos 'religiosos' e 'empresários de sucesso', em conluio com o crime organizado.
Como a canção dos 'Mamonas Assassinas' em que o 'português' que foi à festa ficou a reclamar porque eram os outros os que se divertiam às custas dele. Não dá mais, não. Os burocratas e políticos obscurantistas retribuem pelos votos de Corumbá e Ladário, após juras desleais para a população do Pantanal. Desde que o CEO que substituiu seu habilidoso líder na governadoria, grandes investimentos têm sido liberados para todas as regiões do estado, à exceção de Corumbá e Ladário -- com total aporte do governo Lula, mas não dizem e o atacam sistematicamente por meio da 'Vovó' senadora, nas palavras infelizes do pulha etarista, malcriado e de passado duvidoso que pretende ser o sucessor da dinastia do inominável.
Até aquele projeto de 'sala de parto' (espécie de maternidade fora do ambiente hospitalar, a algumas centenas de metros da maternidade em funcionamento e que tem atendido a todas as gestantes de Corumbá e Ladário) é investimento federal, e, se duvidar, sem contrapartida do governo do CEO. Estamos na luta pela transformação da 'sala de parto' em hospital público, que com acréscimo de recursos do Ministério da Saúde e adequação do projeto, ainda no governo Lula, possamos ter o primeiro hospital público do SUS em Corumbá, além de UBS Fluvial, Ambulancha, Centro Farmacológico Fitoterápico do Pantanal e Hospital Universitário Regional.
Ainda que os eleitos para o Executivo local e o Legislativo estadual (que se diziam 'do Lula' até ganhar a eleição de 2024) façam cara de paisagem quando se trata de atender a legítimas demandas do povo humilde da microrregião do Pantanal, bem como no caso da UFPantanal e também da luta pelo Trem do Pantanal. Sim, conquistaremos, essas e outras demandas justas, levem o tempo que for. Por quê? "Eles passarão. Nós passarinho." 'Poeminho do Contra', do Poeta Mário Quintana (com troca do 'eu' pelo 'nós').
O Pacto pela Cidadania (Movimento Viva Corumbá), desde 1995 -- com o saudoso Dom José Alves da Costa até 1999, o saudoso Padre Pasquale Forin até 2021 e o saudoso Senhor Jorge José Katurchi até 2023 --, levanta a bandeira de integração bilateral (entre outras demandas correlatas) no tocante às relações com a Bolívia, e nada até a presente data (diferentemente que nas cidades de fronteira com o Paraguai, cujo decreto presidencial foi sancionado há poucos dias).
Óbvio que não se trata de falta de representação parlamentar em Campo Grande -- desde a criação do Pacto Pela Cidadania, elegeram-se deputados estaduais Eder Brambilla, Paulo Duarte, Evander Vendramini e Paulo Duarte de novo. Nesse período estiveram em Brasília como parlamentares Manoel Vitório, Delcídio do Amaral e Beatriz Cavassa. Além da interlocução com eles, cada qual a seu tempo, Seu Jorge Katurchi, sobretudo, não sossegava enquanto não via uma atitude convicta do parlamentar. Assim como o também saudoso advogado Rômulo do Amaral, que entrou com ação judicial para impedir a desapropriação do patrimônio do Riachuelo, não tenho dúvida que Seu Jorge Katurchi estaria na liderança de qualquer movimento em defesa desse icônico patrimônio histórico e cultural de Corumbá.
Até quando, senhores? Estão aí o descaso e o pouco caso com o Riachuelo, com o CENIC, com o ILA, com a antiga sede da Prefeitura, com a direção regional do INCRA e da AHIPAR, com o Trem do Pantanal e todo o patrimônio ferroviário, com a duplicação da BR 262 entre Corumbá e Campo Grande, com a Área de Livre Comércio, com a criação da UFPANTANAL, com o projeto de UBS Fluvial, Ambulancha, Centro Farmacológico Fitoterápico e Hospital Universitário Regional e ao qual estamos inserindo a federalização do curso (só do curso!) de Medicina diante da nota obtida pelo curso oferecido pela instituição privada trazida para cá durante o governo sorrateiro de Michel Temer.
Quando conclamados pela relevância das demandas, temos muitas 'caras de paisagem'. Na época das eleições, os candidatos corumbaenses reclamam dos eleitores que preferem candidatos 'de fora'...
A propósito, que tal fazermos nos próximos dias uma ato de desagravo ao majestoso santuário das artes, da cultura e da cidadania? O Riachuelo, os cidadãos anônimos e os personagens históricos que estiveram em seu generoso 'útero' ao longo de sua existência fecunda e iluminada e, sobretudo, a população de Corumbá merecem, e como, esse ato de desagravo.
"TRISTE!"
Embora o atual burgomestre de nossa cada vez mais medievalesca ex-urbe cosmopolita -- cujo progenitor tem a curiosa obsessão de mandar pelo 'Face' (sic) 'tocar trombone' às mães que reclamam por direitos -- tivesse criado o meme "triste" durante sua campanha, dá a impressão de pretender coroar sua gestão com tal adjetivo. Torçamos para que isso não ocorra, pois estamos todos no mesmo barco, chalana ou trem chamado Corumbá, coração do Pantanal.
Não tenho autorização expressa para transcrever os desabafos postados na rede social em que compartilhei a matéria sobre a iminente demolição da sede do Riachuelo, por isso publicarei apenas três comentários recebidos, sem nomes de Amigas e Amigos, pelo que me limito a uma pequena descrição da autora ou autor.
A Amiga que é uma das maiores expressões do talento artístico corumbaense, legítima porta-voz da cultura pantaneira em todo o Brasil, foi eloquente em seu desabafo: "Tantas histórias perdidas nesse clube... Só falta demolirem o Corumbaense ... A cidade do já foi, já teve... Triste!"
Amigo em cuja juventude galgou importantes postos da radiofonia, que transmitia ao vivo festivais e concursos de Miss Corumbá e algumas vezes de Miss Mato Grosso, foi jurado em algumas edições de festivais nos anos 1970 e apresentou com duas outras Amigas, entre outros, o show de Emílio Santiago no Riachuelo, deixou este consternado depoimento: "Estarrecedora a notícia sobre a demolição do Riachuelo... Eu vivenciei muitos eventos memoráveis. Ali tem muito de minha juventude, nossas inquietudes. Entre os eventos que trago na memória, estão a apresentação de uma cerimônia da OAB e do show de Emílio Santiago em companhia de duas Amigas. Gratas as lembranças, como os bailes animados pelo 'MJ-6' e os carnavais inesquecíveis, que as novas gerações não conhecerão. Mas faz parte..."
Lacônico e muito representativo é, também, o comentário da querida Amiga que bem jovem participou das atividades do Comitê de Corumbá e Ladário da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, e foi embora da cidade há mais de trinta anos: "Puxa... Lá se vai o Riachuelo, né, amigo?"
Não se trata de saudosismo. A bem da verdade, não posso dizer que fui assíduo frequentador das emblemáticas noites propiciadas pelos bailes e shows do clube do qual meu saudoso Pai foi sócio desde a sua chegada a Corumbá. As vezes, em seis décadas, que estive em seu majestoso interior não devem passar de duas dezenas, todas elas inesquecíveis, é verdade. Quando um grupo de valorosos corumbaenses que se decidiram a resgatar o clube, uma década atrás, me procurou para fazer um projeto e levantar a história do Riachuelo, me coloquei à disposição. Lamentavelmente muitos episódios nesse ínterim ocorreram e creio que muitos dos integrantes acabaram por se afastar, inviabilizando essa iniciativa louvável.
Sem qualquer ranço bairrista, mas também sem abrir mão de minha indignação cidadã ante a omissão da cidadania e das autoridades locais e regionais, é fato (e, como ensina meu querido Amigo Doutor Carmelino Rezende, "contra fatos não há argumentos") que Corumbá passou a ser alvo de bizarro desmonte de emblemáticos equipamentos urbanos e investimentos pioneiros desde 1977, quando o ditador da vez Ernesto Geisel decidiu, sem qualquer consulta democrática à população, dividir Mato Grosso para garantir maioria parlamentar à Arena, partido de sustentação do regime. Fez parte desse ardil a fusão dos estados da Guanabara ao do Rio de Janeiro em 1975, os dois de maioria oposicionista, logo depois de tomar posse em 1974, e o súbito anúncio da criação do estado de 'Campo Grande', em outubro de 1977, ano do funesto Pacote de Abril, que decretou, com base no AI-5, o recesso do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal para cassar parlamentares oposicionistas e ministros da Suprema Corte, introduzir a figura patética do 'senador biônico' e adiar a volta das eleições diretas para governadores de estado e de prefeitos das capitais e das áreas de 'segurança nacional'.
Desde que Campo Grande, o provinciano vilarejo que se beneficiou do casuísmo nos estertores da morte do regime de 1964, se tornou capital do que sobrou de Mato Grosso, o centro cosmopolita representado por Corumbá foi perdendo paulatinamente seu protagonismo e, também, seus icônicos prédios do imenso patrimônio histórico-cultural, como Cine Santa Cruz, Intendência, Colégio Santa Teresa, Cine Teatro Bijou, Rádio Difusora Mato-grossense S/A, Cine Tupi, Cooperativa de Crédito do Pantanal (o popular 'Banquinho' da Delamare), Clube Noroeste, Clube Marítimos, Grêmio Recreativo, Museu Regional do Pantanal, Grande Hotel, Creche Lar Santa Rosa, Cacimba da Saúde (próxima à Casa do Massa-Barro), Cervejaria Corumbaense S/A, Cervejaria Príncipe (Irmãos Prado Ltda.), imponente prédio da COTECO (mais tarde Telemat/Telems), Primeira Igreja Batista de Corumbá, Assembleia de Deus (rua Cabral), Igreja Adventista do Sétimo Dia (rua Colombo), Matriz do Banco Financial de Mato Grosso (depois Bamerindus e mais tarde HSBC).
Em 1964, ano da "Redentora", meus saudosos Pais escolheram Corumbá, pelo que sou imensamente grato ao povo corumbaense e brasileiro -- não troco este Paraíso na Terra por nada no mundo, como não troquei na juventude -- como lugar seguro e de promissão para a sua Família, e com sacrifício e honradez se dedicaram incansavelmente ao trabalho e à formação educativa, sobretudo, cidadã. Na época, dois voos domésticos diários e quatro voos internacionais semanais conectavam a vanguardista cidade do cosmopolitismo mato-grossense ao Brasil e à América Latina; além do Serviço de Navegação da Bacia do Prata S/A, outras companhias traziam e levavam os passageiros e cargas entre Corumbá e Cáceres e os países platinos; dois trens de passageiros diários com destino a Campo Grande, Três Lagoas e Bauru, três trens de passageiros e três litorinas ("ferrobús") semanais com destino a Santa Cruz de la Sierra -- a EFNOB, depois SR-10/RFFSA, e a ENFE/Red Oriental, Bolívia, cada qual em sua estação, a algumas centenas de metros (só em 1o. de maio de 1968 é que a imponente Estação Ferroviária Internacional de Corumbá, hoje reduzida a escombros pelo descaso, seria inaugurada com a presença dos ministros dos Transportes dos dois países, duas ditaduras, do marechal Arthur da Costa e Silva e do general René Barrientos Ortuño, com a presença obrigatória de alunos de escolas públicas e privadas, inclusive esta testemunha involuntária).
A ironia corumbaense vive a dizer que Campo Grande só não leva o rio porque não dá. Mas gente poderosa de lá está tentando acabar com ele, como está na iminência de demolir o Riachuelo. Temos que lembrá-los que Riachuelo, na cidade em que seu veio principal é o rio, não é estação lodal, mas patrimônio local.
Ahmad Schabib Hany